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terça-feira, 27 de abril de 2021

20 anos do curso de Medicina em Barbalha: a possibilidade de cursar Medicina perto de casa e os avanços no Ensino médico do Cariri

 



















Mesmo com uma faculdade particular já instalada na região, a existência do Ensino médico gratuito no Cariri foi decisiva para que Renata Bacurau (caloura na turma de 2007 e hoje atuante na UTI do Hospital Regional do Cariri – HRC) se tornasse médica. “Se não houvesse uma faculdade pública de Medicina no Cariri, eu provavelmente nem teria feito Medicina. Talvez tivesse feito Direito ou Enfermagem na Urca. (…) A presença de uma faculdade de Medicina pública, perto de casa, tornou o sonho de ser médica possível. Os gastos [para estudar no Cariri] eram bem menores”, disse Renata, que, na época, morava com os pais, no Crato. 

Para estudantes que ingressaram em turmas mais recentes e que já conviveram com uma oferta mais ampla de cursos de Medicina em diferentes faculdades localizadas na região ou em cidades mais próximas, públicas ou privadas, a presença de um curso gratuito de Medicina em Barbalha permanece ampliando os horizontes de quem já mora por aqui. Andrezza Maia, que ingressou na turma de 2017 e ainda é aluna do curso, precisava passar no processo seletivo de uma faculdade pública para concretizar o plano de fazer Medicina. 

“Eu sempre soube que precisava passar em uma faculdade pública, pois não tinha condições financeiras para arcar com a mensalidade de uma faculdade particular e, principalmente, de um curso tão caro como é o de Medicina (…)”. Se não conseguisse a vaga na UFCA, a opção seria a cidade mais próxima e com o menor custo de vida. Nesse caso, ela tentaria vaga na Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), no campus de Cajazeiras-PB. Hoje, Andrezza, já perto de concluir o curso, comemora a oportunidade de estudar perto de casa.  “Sobretudo por questões financeiras. Como moro com os meus pais em Juazeiro [do Norte], não tenho despesas extras com moradia, entre outros. Apesar de existirem ainda muitos custos, não se compara com os que [eles] teriam se eu morasse em outra cidade”, disse

O médico plantonista Vangleilson Diniz Morais, da turma de 2014, também tinha como primeira opção estudar no Cariri e em uma universidade pública. Natural de Várzea Alegre, mas já naquela época morando em Juazeiro do Norte, para fazer o cursinho pré-vestibular durante o ano de 2013, prestou o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) para ingressar em universidades públicas ou particulares, por meio do Sistema de Seleção Unificada (SiSU) ou de outros vestibulares pelo Brasil. Conseguiu passar em nove seleções para Medicina. 

“O fato de haver uma universidade na região facilita em vários aspectos, como, por exemplo, não precisar morar fora e ficar longe da família, com outros ônus que advém desse deslocamento, como os custos financeiros”, ressaltou. Atualmente, ele tem atuado na região como médico plantonista da UTI-Covid e médico da emergência do Hospital Regional de Iguatu e do Hospital Regional do Cariri. 

A possibilidade de fazer Medicina perto de casa facilitou o ingresso dos estudantes ao Ensino médico. No entanto, por estarem em uma faculdade em processo de consolidação, a graduação foi acompanhada de muitos desafios, especialmente para os estudantes que ingressaram nas primeiras turmas. Além de conviver com um corpo docente em formação, a estrutura ainda estava em construção e quase não havia oportunidade de prosseguir com os estudos após a graduação. Na dissertação de mestrado “Curso de Medicina da Universidade Federal do Cariri: sua origem e consolidação (2001-2018)”, do professor do curso e médico endocrinologista Bernardo Pinheiro Cardoso de Brito, apresentada no primeiro texto desta série (link para uma nova página), muitas questões desses primeiros anos são relatadas. Na pesquisa, o médico psiquiatra e coordenador do programa de Residência Médica de Psiquiatria do Hospital de Saúde Mental Professor Frota Pinto, Eliézer Luna de Alencar Feitosa, da primeira turma, ressaltou a importância da união de forças para atingir os propósitos do curso.

 Em relação à contratação de professores, ele conta que, além das poucas vagas, a concorrência era pequena e não havia uma ampla divulgação de editais. Com isso, os próprios estudantes saíam em busca de bons profissionais que pudessem concorrer às vagas disponibilizadas. Conforme relato de Eliézer a Bernardo Brito, a procura por médicos (que, muitas vezes, queriam estar na UFC, mas que, pelo dia a dia atribulado, sequer sabiam da existência dos editais de seleção) era motivada principalmente por interesses dos então estudantes, visando à própria formação, “mas também criando um quadro de profissionais competentes e adequados para o nível que a UFC (hoje UFCA) merece”.

Outra dificuldade na formação do corpo docente era a grande quantidade de substitutos. Em entrevista à Diretoria de Comunicação (Dcom/UFCA), o médico Sávio Samuel Feitosa Machado, que ingressou na turma de 2004 e hoje é supervisor do Programa de Residência em Patologia da UFCA, explicou que, naquela época, a maior parte dos professores era composta de substitutos, com tempo máximo de contrato limitado a dois anos. “Após esse período, o docente não poderia fazer nova seleção para substituto, por impedimento legal, e muitas vezes aquele era o único médico com determinada especialidade na região do Cariri. 

Novas seleções eram abertas e não havia nenhum aprovado para a vaga. Essa, sem dúvida, foi a principal dificuldade da minha época”, disse. A situação do corpo docente começou a melhorar cerca de seis anos após o início do curso, depois da entrada da sexta turma, de acordo com Emille Sampaio. As melhorias, conforme a professora, vieram depois de mobilização estudantil e do Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni). “Nesse período, de 2006 até 2010, contratamos muito professores efetivos. E esses professores [foram contratados], em especial, para o ciclo clínico, que não tinha nenhum professor efetivo na época em que entrei no curso”, relembrou.

A estrutura de apoio ao curso também estava em processo de construção e foi um desafio para as primeiras turmas. Renata Bacurau, da sétima turma, já ingressou com acesso a uma biblioteca com um pequeno acervo de livros; a ambulatórios fora da faculdade, mesmo em espaço reduzido, e aos hospitais da região que recebem estudantes da UFCA para o desenvolvimento de atividades práticas, por meio de parcerias com a Universidade. “Com certeza as dificuldades foram menores que as enfrentadas pelas primeiras turmas”, ressaltou. Atualmente, a Famed/UFCA conta com um grupo sólido de docentes efetivos e de servidores técnico-administrativos, biblioteca com acervo maior e mais atualizado, ambulatório de especialidades médicas dentro do campus, que também abriga o único Serviço de Verificação de Óbitos (SVO) do interior do Ceará.

 Há bolsas de Ensino, Pesquisa, Extensão e Cultura, além de programas de assistência estudantil voltados a discentes em situação de vulnerabilidade socioeconômica. Os estudantes também contam com Refeitório Universitário, novos laboratórios e melhorias na estrutura física. Ainda há, no entanto, a lacuna do Hospital Universitário. Para as práticas, os estudantes contam com as parcerias entre a UFCA e os hospitais da região e também podem buscar cumprir parte do internato em serviços de saúde oferecidos fora do Cariri. Conforme a Administração Superior da UFCA, no momento, não há previsão de construção de um Hospital Universitário, pelo fato de que o custo de implantação de um hospital é muito alto (superando o orçamento anual da própria Universidade). 

A situação de verbas reduzidas, como a enfrentada atualmente pela Universidade, é mais um fator que torna o projeto inviável. Mesmo com esses entraves orçamentários, as melhorias físicas na Famed/UFCA permanecem em andamento, entre as quais é possível citar construção da Clínica Escola (link para uma nova página). O espaço contará com ambulatórios, sala de coleta, espaço para curativos e suturas, espaço para esterilização, sala de reuniões e salas de professores.

 Nos primeiros anos de Famed no Cariri, outra dificuldade enfrentada pelos estudantes era a impossibilidade de prosseguir com os estudos após a graduação. Se a presença da Faculdade de Medicina em Barbalha permitia a conquista da graduação sonhada perto de casa; para prosseguir com a formação médica, muitos estudantes precisaram se deslocar para grandes centros. Desde 2009, o Ensino médico no Cariri avançou também na pós-graduação e o deslocamento não é mais necessário, a depender da especialidade escolhida. Atualmente, a Famed/UFCA conta com seis programas de Residência Médica nas áreas de Cirurgia Básica, Clínica Médica, Ginecologia e Obstetrícia, Medicina de Família e Comunidade, Patologia e Pediatria.

  “A residência é considerada a especialização ‘padrão-ouro’ para a formação de médicos em nível de pós-graduação lato sensu, sendo os seus concludentes reconhecido como especialistas nas suas áreas pelo Conselho Federal de Medicina. Os programas são credenciados pela Comissão Nacional de Residência Médica e reavaliados periodicamente quanto à sua qualidade, pelo menos a cada cinco anos”, explicou o médico Sávio Samuel, supervisor do Programa de Residência em Patologia. Para 2021, a estimativa é que 44 médicos estejam efetivamente cursando suas residências na UFCA.

Além das residências, há também dois programas de pós-graduação stricto sensu na área da Saúde: o programa Multicêntrico de Pós-Graduação em Bioquímica e Biologia Molecular, em nível de mestrado e doutorado; e o Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde, em nível de mestrado, que contribuem não só para a formação médica, mas para a formação em saúde. Segundo Sávio Samuel, a tendência é o crescimento dessas vagas, pois existe uma demanda crescente de médicos e outros profissionais de saúde, formados ou não na UFCA, interessados na vida acadêmica. “Estudar, em nível de Pesquisa, os agravos de saúde que mais acometem a população do Cariri é um imperativo e deve ser encarado como uma das prioridades pela comunidade acadêmica da UFCA”, ressaltou.

Fonte: https://ufca.edu.br