sexta-feira, 16 de outubro de 2020

Única mulher negra concorrendo à prefeita no Cariri, professora Zuleide Queiroz fala sobre propostas para o Crato e história de militância

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                                                                  FOTO >  Divulgação 



Única mulher candidata à Prefeitura do Crato e única mulher declarada negra concorrendo à prefeita em todo o Cariri, a professora Zuleide Queiroz, do Partido Socialismo e Liberdade (Psol), conversou com o Portal Badalo sobre propostas para a cidade e história de militância na região.


A professora da Universidade Regional do Cariri (URCA) é originária de Fortaleza, tendo chegado em 1994 para assumir concurso em sua profissão na cidade. Em 2004, foi a primeira mulher a se candidatar à Prefeitura do Crato, à época pelo PSTU, voltando a concorrer para o cargo em 2020.

Zuleide conta que, ainda em Fortaleza, já atuava na militância feminista pelos direitos das mulheres. Chegando ao Cariri, a candidata diz que o primeiro contato com mulheres do movimento social foi após o assassinato da secretária de cultura do Crato, participando de mobilização para o julgamento do companheiro da vítima, responsável pelo feminicídio.

Com a história na proteção das mulheres, Zuleide traz propostas de acolhimento às que sofrem violência doméstica, com a criação de uma casa abrigo. “Nós sabemos que as mulheres sofrem violência, levamos para que façam o B.O., para o hospital, para que seja atendidas, para assistência jurídica, mas onde guardamos essas mulheres e seus filhos? Não temos uma casa abrigo na região”, afirma a candidata.

A fiscalização de hospitais e maternidades no que diz respeito ao atendimento de mulheres, com ênfase nas mulheres negras, assim como o fortalecimento da estratégia de saúde da família com mais profissionais em todas as localidades do Crato, inclusive zona rural são propostas da candidatura. A necessidade da Delegacia da Mulher aberta 24h também é uma prioridade de campanha.

Para as mulheres que são mães e trabalham, Zuleide traz a proposta de criação de creches em tempo integral com recursos do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb). Por fim, a candidata também fala na criação de uma patrulha Maria da Penha, formando mulheres na Guarda Municipal.

Segundo Zuleide, o Psol Crato realizou, ao longo da campanha, dez seminários sobre os mais diversos temas, como comunidade LGBT, trabalhadores do campo, saúde, cultura e meio ambiente, convidando os movimentos sociais e sindicais. A candidata explica que a militância é uma das bases para os integrantes do partido, e foi o que guiou a escolha do vice, Juciel Lima, também professor no Instituto Federal do Ceará (IFCE).

“Já recebi denúncias de escolas com rachadura, escolas sem água. Um número muito alto de professores temporários”, afirma Zuleide. Ela explica que o problema de contratação de professores temporários é ficaram à mercê da vontade política do gestor. “Não pode um trabalhar estar ameaçado todo ano de onde é que ele vai trabalhar, na saúde e na escola se cria vínculos com a comunidade”, explica a candidata.

Para resolver a situação, Zuleide propõe concurso público e condições mínimas para o trabalho dos professores e conforto dos alunos, como a oferta de transporte escolar. “Se tem concursados para serem chamados, vão ser chamados na nossa gestão. Observar onde o professor mora e se pode trabalhar nesse local”, são algumas propostas.

“Não podemos fechar escolas. Crianças não podem correr o risco de pegar um transporte para estudar longe de casa”, diz a candidata. “Isso não demanda dinheiro, demanda confiança e respeito ao professor”, conclui Zuleide.

Por fim, a candidata fala sobre eleição para diretores em todas as escolas, proposta que está no plano municipal de educação mas que, segundo ela, nunca foi cumprida.

Sobre a convocação de um concurso municipal este ano, a candidata afirma que “é no mínimo estranho”. Ela questiona a demanda e a quantidade de vagas, assim com a aplicação do concurso no último ano da gestão atual, coincidindo com as vésperas das eleições. Zuleide também questiona a proposta de um curso de medicina na URCA também no mesmo período. “Não é essa a forma de governar o município, isso é muito triste e perigoso”, afirma. “O Crato tem 250 anos governado pelos mesmo agrupamentos, a população pobre do Crato já esperou demais, agora ela quer participar dessa representatividade, e nada pode nos tirar o direito de participar”, diz ela.

Zuleide ressalta que a política ainda é um local majoritariamente masculino. “Onde está dito que nós não podemos? As mulheres movem o mundo”, diz a candidata. “Eu me vejo como uma mulher de 56 anos, professora, que trabalhei muito, que estudei muito, e que ando muito nessa cidade e luto por ela. Sou uma pessoa dedicada a esse município”.

Em relação às mulheres na política, Zuleide ressalta que o gênero feminino é o maior atingido por candidaturas laranjas, ou seja, de fachada, chegando a serem 80% do total na última eleição. “A poucas que se elegem, no último dado foram 0,03% de mulheres prefeitas e 2,46% de mulheres vereadoras, geralmente não são mulheres não negras, sendo esposas do prefeito, filhas do prefeito, sobrinhas do prefeito, muitas vezes no lugar dele, que não pôde se candidatar porque estava com nome questionado”, diz ela. “Nossas candidaturas são candidaturas de verdade. Nós somos mulheres que nos preparamos para estar no cargo público”, reforça Zuleide.

Por fim, Zuleide Queiroz ressalta que a maior parte da população cearense é negra, e isso não se faz representar na política. Ela explica que se coloca como um exemplo para que a população, e em especial meninas e jovens negras, se inspirem e pensam “eu posso ser candidata, eu posso representar meu município e meu estado”. “Nossas candidaturas são candidaturas da esperança”, conclui. 


( Badalo) 

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