Crédito: JÚLIO CAESAR
A seca voltou a avançar no Ceará e alcançou 89,02% do território estadual em setembro de 2026, segundo o Monitor de Secas.
Embora o cenário seja predominantemente de seca fraca, a Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme) prevê possibilidade de agravamento até dezembro, com temperaturas elevadas e baixa ocorrência de chuvas.
O Monitor de Secas é coordenado pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), com participação de instituições estaduais e federais. No Ceará, a Funceme contribui para o acompanhamento das condições meteorológicas e dos impactos da estiagem.
O percentual representa a área territorial classificada sob seca relativa, e não a proporção da população ou dos municípios diretamente afetados.
O percentual registrado em setembro representa uma alta em relação a agosto, quando 87,90% do território cearense estavam sob alguma condição de seca. A mudança é mais expressiva na comparação com junho e julho, quando o fenômeno atingia 29,72% do Estado.
Do total registrado em setembro, 84,47% correspondiam à categoria de seca fraca (S0), enquanto 4,55% estavam classificados como seca moderada (S1). Não havia áreas enquadradas nas categorias de seca grave, extrema ou excepcional.
O percentual representa a extensão territorial sob os efeitos da seca relativa, e não a proporção da população atingida. O levantamento considera indicadores relacionados à precipitação, à evapotranspiração, à umidade do solo e às condições da vegetação, entre outros fatores.
Confira a divisão dos diferentes tipos de seca no Ceará
| Mês de 2026 | Sem seca | Seca fraca | Seca moderada |
| Maio | 51,53% | 48,47% | 8,04% |
| Junho | 70,28% | 29,72% | 2,80% |
| Julho | 70,28% | 29,72% | 2,80% |
| Agosto | 12,10% | 87,90% | 3,95% |
| Setembro | 10,98% | 89,02% | 4,55% |
O avanço da seca ocorre durante o segundo semestre, período em que as precipitações diminuem naturalmente no Ceará após a quadra chuvosa, entre fevereiro e maio.
Conforme a climatologia apresentada pela Funceme, a média estadual de chuva cai de 15,4 milímetros em julho para 4,9 milímetros em agosto e 2,2 milímetros em setembro.
A redução das chuvas, associada às temperaturas elevadas e à evaporação, contribui para a perda de umidade do solo e para a diminuição da reposição hídrica. Os efeitos podem atingir a vegetação, a agricultura e os ecossistemas.
“Isso está explicado basicamente pela manutenção das condições de baixíssima pluviometria e também pelo aumento da temperatura do ar. A temperatura tem impacto na evaporação e provoca um maior déficit hídrico no solo. A vegetação também começa a sofrer”, explica Francisco Vasconcelos Junior, diretor técnico da Funceme.
Segundo o especialista, o avanço da seca fraca tem sido observado principalmente no norte do Estado e em parte da região Jaguaribana. As regiões Central, Oeste e dos Inhamuns também estão entre as áreas que demandam atenção, embora o quadro predominante no levantamento de setembro ainda seja de seca fraca.
A análise também considera diferentes escalas de tempo, de períodos recentes, como três e seis meses, até intervalos de 24 meses. Dessa forma, a ocorrência de chuvas pontuais pode melhorar indicadores locais sem necessariamente reverter de imediato os efeitos acumulados da estiagem.
Os açudes cearenses iniciaram o mês com cerca de 8,5 bilhões de metros cúbicos de água armazenada, o equivalente a 46,77% da capacidade total.
Apesar de o volume representar o terceiro maior percentual de armazenamento da década, algumas bacias, como Sertões de Crateús, Banabuiú, Baixo Jaguaribe e Médio Jaguaribe, apresentavam níveis inferiores a 30%.
A situação dos reservatórios reforça a importância do acompanhamento regional dos recursos hídricos. A extensão da seca relativa não indica, isoladamente, a condição de abastecimento de cada município, já que os níveis dos açudes e os efeitos sobre a população variam conforme a região.
Francisco Vasconcelos Junior ressalta que o cenário atual é menos severo que o observado em setembro de 2025, quando havia áreas com seca moderada e grave. Naquele período, os efeitos também foram mais expressivos sobre os reservatórios e a vegetação.
Para outubro, novembro e dezembro, a perspectiva apresentada pelo diretor técnico da Funceme é de intensificação das condições de seca em algumas regiões.
O aumento da temperatura e da evapotranspiração pode ampliar a pressão sobre a vegetação e os corpos hídricos, com possibilidade de surgimento de áreas classificadas como seca moderada.
“Para os próximos meses, a tendência é de intensificação da seca, com possibilidade de condições moderadas em algumas regiões. O aumento da temperatura e da evapotranspiração pode ampliar os impactos sobre a vegetação e os recursos hídricos”, afirma Francisco Vasconcelos Junior.
A evolução dependerá da ocorrência de chuvas e de seus efeitos sobre a umidade do solo e os recursos hídricos. Precipitações isoladas podem melhorar os indicadores em áreas específicas, mas não necessariamente reverter déficits acumulados em períodos mais longos.
A Funceme também acompanha a evolução do El Niño, fenômeno que pode favorecer temperaturas mais elevadas e influenciar a distribuição das chuvas.
O comportamento dos próximos meses será importante para avaliar se o avanço da seca permanecerá concentrado na categoria fraca ou se haverá ampliação das áreas sob condições mais severas.
o Povo

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