
Barbalha, município do Cariri cearense, vivencia neste domingo, 31, um dos momentos mais tradicionais da cultura popular do Ceará: a Festa do Pau da Bandeira de Santo Antônio. A celebração, que homenageia o padroeiro do município, marca simbolicamente a abertura dos festejos juninos no Estado e atrai milhares de fiéis, turistas e admiradores da cultura popular.
O evento marca o início da 98ª edição da Festa de Santo Antônio de Barbalha, que segue até o dia 13 de junho com atividades religiosas, apresentações culturais e shows.
Realizada desde 1928, a celebração é considerada pelo Instituto do Patrimônio Histórico Nacional (Iphan) como Patrimônio Imaterial da Cultura Brasileira.
O ponto alto do festejo é o popular carregamento do Pau da Bandeira. Para a edição de 2026, um tronco de angico de aproximadamente 25 metros e 1,5 metro de diâmetro, pesando cerca de 3 toneladas, foi conduzido por mais de 300 pessoas em revezamento, por um percurso de aproximadamente 6 quilômetros, do Sítio São Joaquim ao Centro Histórico de Barbalha.
Ao longo do percurso, devotos e visitantes se aproximam do tronco para tocar nele ou até mesmo sentar sobre a madeira, façanhas que mantêm vivas as tradicionais simpatias associadas a Santo Antônio, conhecido popularmente como o santo casamenteiro.
Confira registros do trajeto:
Segundo estimativa da Secretaria Municipal de Turismo de Barbalha, mais de 350 mil pessoas eram esperadas para o evento.
Peso do mastro e dificuldades no percurso atrasam chegada do Pau da Bandeira
Em comparação ao ano anterior, contudo, o percorrer do trajeto foi mais árduo para os carregadores devido a natureza do mastro.
Na edição anterior, por volta das 16h30, o Pau da Bandeira já havia chegado à Igreja do Rosário, onde os carregadores participam de um momento de oração antes de retomar o percurso pela Rua do Vídel em direção à Rua da Matriz, local do tradicional hasteamento. Neste ano, porém, o cortejo chegou ao templo às 18 horas em ponto.
O corte do Pau da Bandeira de Santo Antônio foi realizado em 19 de maio, no Sítio Flores, em Barbalha. Na tradição, a árvore escolhida é uma das mais altas da mata. Após o corte, o tronco permanece no local por cerca de 15 dias para perder parte da seiva e dos líquidos naturais, reduzindo seu peso.
Mesmo assim, o angico é naturalmente mais pesado que o jatobá utilizado em 2025, que tinha aproximadamente 23 metros, o que contribui para um deslocamento mais lento do cortejo. O tronco também tinha um formato bastante irregular, o que dificultava a pegada dos carregadores.
Outro fator que contribuiu para o atraso foi a presença de carros estacionados no trajeto. Em alguns trechos, os próprios carregadores precisaram empurrar e arrastar os veículos com a força das mãos para liberar a passagem do Pau da Bandeira.
Para Rildo Teles, capitão do Pau da Bandeira desde 2000, o peso da madeira transformou a edição de 2026 em uma das mais desafiadoras da história. “A gente já sabia desde o início que o angico teria essa dificuldade. Afinal de contas, é uma madeira pesada. Percorrer todo esse trajeto sem nenhum acidente grave ou lesão prova a responsabilidade dos carregadores, com sua fé e sua tradição”, afirmou.
O capitão demonstrou emoção ao falar sobre o significado da celebração. “É uma sensação de dever cumprido. Você faz aquilo que ama, não por acaso, mas porque existe sentimento, amor e fé. Estou aqui de alma lavada. As lágrimas vieram porque a gente sabe da responsabilidade e do amor que tem ao nosso padroeiro, Santo Antônio”, declarou.
No momento da chegada, foi entoada a canção Ave Maria Sertaneja, obra de Luiz Gonzaga, bastante associada à celebração. Em seguida, houve um momento de oração, homenagem e lembrança aos carregadores que já faleceram.
Diferentemente de outros anos, o tronco permaneceu pouco tempo na Igreja do Rosário, já que o cortejo estava atrasado. Em seguida, retomou o percurso em direção à Igreja Matriz de Santo Antônio, onde seria hasteado em frente ao templo.
Embora o tronco tenha chegado à Praça da Matriz por volta das 19h45, a preparação para a elevação exigiu mais tempo. Por conta do atraso, o hasteamento do Pau da Bandeira só foi concluído por volta das 21h05 — nos últimos anos, esse momento costuma ocorrer por volta das 18h30min — marcando esta uma das festividades mais longas dos últimos anos.
A celebração ocupa diversas ruas da cidade. Os moradores transformaram as próprias casas em pontos de encontro, montando pequenos camarotes nas calçadas, promovendo apresentações de forró pé de serra e oferecendo serviços como venda de bebidas, alimentos e até banheiros para os visitantes.
O resultado é uma grande confraternização coletiva de moradores, turistas e devotos reunidos para ver o tranco passar.
Entre os milhares de visitantes que acompanharam a Festa do Pau da Bandeira estava Fátima Oliveira Olégario, servidora pública e moradora do município de Exu, em Pernambuco. Apesar de ter parentes na região do Cariri e ouvir falar da celebração há muitos anos, ela participou do evento pela primeira vez, acompanhada do filho mais novo.
“Já tinha recebido convites dos familiares para conhecer a festa, mas costumava relutar. Neste ano, decidi aceitar o convite. Fiquei surpresa com a quantidade de pessoas presentes, não imaginava que reunisse um público tão grande. Gostei muito e pretendo voltar outras vezes”, conta.
Blog do Amaury Alencar o Povo


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