COLETIVO TRANS DO CARIRI DENUNCIA DESPREPARO, COBRA POLÍTICAS PÚBLICAS E ALERTA PARA PARALISAÇÃO DE AMBULATÓRIO ESPECIALIZADO NO CRATO

 


                                                                 foto : Oliver Dias  


Em entrevista concedida ao Blog do Amaury Alencar e ao site Matheus Repórter Cariri, o presidente do Espaço Cultural Quintal Delus e diretor do Coletivo Trans do Cariri, Charlie Renatti, trouxe à tona uma série de demandas, desafios e reivindicações enfrentadas pela população trans e travesti na região do Cariri cearense. A fala evidencia avanços institucionais, mas também revela entraves estruturais que ainda impedem a garantia plena de direitos.

“Meu nome é Charlie  Renatti, sou pessoa trans não-binária, presidente do Espaço Cultural Quintal Delus  um dos diretores do Coletivo Trans do Cariri. Desde 2022 a gente vem se reunindo para entender as dificuldades que atravessam as pessoas trans e travestis aqui na região”, destacou.

Despreparo institucional e violências estruturais

Entre as principais problemáticas apontadas está o despreparo de profissionais de diversas áreas — saúde, educação, setor comercial e segurança pública — no atendimento e acolhimento da população trans.

Segundo Charlie a violência enfrentada vai além da agressão física. “A violência não é apenas aquela que fere o nosso corpo. É quando barram nossos direitos, quando negam acesso e permanência à educação, quando não nos inserem no mercado de trabalho simplesmente pelo nosso gênero ou orientação sexual”, afirmou.

Para o coletivo, a exclusão social ainda é uma realidade marcante no interior do Estado, onde o conservadorismo e o moralismo muitas vezes são utilizados como justificativa para o desrespeito.

“A sociedade foi construída dentro de uma lógica normativa, cisgênera e hierarquizada. Muitas vezes as pessoas trans ficam à margem. Ainda precisamos explicar que precisamos de políticas públicas e que precisamos ser respeitadas”, pontuou.

Atuação da Secretaria de Direitos Humanos e ações formativas

Apesar das dificuldades, Charlie reconhece que há avanços institucionais por meio da Secretaria de Direitos Humanos, que vem atuando em parceria com o movimento social na construção de políticas públicas baseadas na formação e sensibilização.

“Nós temos trabalhado muito no pilar da educação. Fizemos formações com agentes de segurança do município do Crato, apresentando uma cartilha contra a LGBTfobia. Sentamos com a rede de saúde para mostrar as especificidades da população trans, especialmente no mês de janeiro, que é o mês da visibilidade trans”, explicou.

A atuação também alcançou a rede municipal de ensino. Foram realizadas formações com coordenadores da educação fundamental, além da participação de famílias com crianças e adolescentes trans, que relataram situações de preconceito vivenciadas dentro do ambiente escolar.

“Levamos famílias que têm filhos trans para mostrar a realidade de quem chega na escola e muitas vezes sofre violência. O que poderia ser simples ainda é difícil no interior”, destacou.

Segundo Charlie quando o poder público assume a pauta e reforça que o respeito é respaldado por legislação estadual contra a LGBTfobia, a sociedade tende a assimilar com maior seriedade.

“Quando chega a Secretaria e diz que é direito humano, que é lei estadual, aí deixa de ser visto apenas como uma reivindicação de movimento social e passa a ser compreendido como algo que precisa ser seguido.”

Ambulatório trans parado preocupa coletivo

Um dos pontos mais sensíveis abordados na entrevista foi a paralisação de um ambulatório de atenção à pessoa trans, que vinha sendo estruturado de forma voluntária por profissionais que já realizavam atendimentos específicos.

“O ambulatório nasceu de forma voluntária. Alguns profissionais já faziam esse tipo de atendimento, mas sem investimento não há como expandir. Quando não há apoio estruturado, o serviço acaba ficando limitado”, lamentou.

De acordo com Charlie, já existem conversas entre movimento social, poder público municipal e o Governo do Estado para viabilizar a continuidade e ampliação do serviço. No entanto, o processo ainda está em fase de articulação.

“Quando a gente consegue ter um atendimento que antes não existia, começamos a ter esperança e a viver melhor. Quando isso é interrompido, precisamos dar um passo atrás e pensar em novas estratégias para avançar.”

O coletivo defende que o ambulatório especializado é fundamental para garantir atendimento humanizado, acompanhamento hormonal seguro e suporte psicológico adequado, reduzindo riscos à saúde dessa população.

Mobilização contínua e busca por equidade

Mesmo diante das dificuldades financeiras e estruturais, o Coletivo Trans do Cariri segue realizando ações formativas e mobilizações sem investimento fixo, mantendo a luta ativa por equidade e respeito.

“O trabalho do coletivo já vem sendo feito há muito tempo, mesmo sem recursos. A gente continua tensionando, dialogando e buscando caminhos para avançar”, afirmou.

Ao final da entrevista, o Blog do Amaury Alencar e o site Matheus Repórter Cariri reafirmaram o compromisso de abrir espaço para o debate e contribuir para o fortalecimento do diálogo em torno dos direitos humanos na região.

A pauta da população trans no Cariri segue como um desafio social que exige compromisso contínuo do poder público, da sociedade civil e das instituições, para que a dignidade e o respeito deixem de ser reivindicações e passem a ser realidade cotidiana. 

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